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//Coronavírus e a aparente escolha entre a vida e a economia

Coronavírus e a aparente escolha entre a vida e a economia

O mundo, depois de 102 anos, vive uma nova pandemia. Os que possuem melhor memória, lembrarão da última grande pandemia das lições de sala de aula.

“A Gripe Espanhola”, no ano de 1918, vitimou mais de 20 milhões de pessoas em todos o mundo e cerca de 30 mil brasileiros. Essa imensa lacuna temporal, aparentemente, fez com que estivéssemos despreparados econômica e biologicamente para enfrentar à altura esse inimigo invisível e letal.

Apesar dos imensos avanços biotecnológicos, pouco se investiu mundialmente em pesquisas de vírus da família Corona, mesmo sabendo que os “primos” mais velhos da Covid19, mataram mais gente que o próprio Coronavírus, a exemplo do SARS e MERS. E foi assim, que não mais que de repente, o mundo se viu acometido de uma nova pandemia, altamente transmissível e contagiosa.

Na China, no resto da Ásia, na Europa e nos EUA, a chegada do vírus foi avassaladora, pegando vários países completamente despreparados para as consequências médicas da pandemia, a exemplo do que ocorre na Itália e na Espanha, onde o número de infectados é tão grande, que a impossibilidade de sua mensuração gera uma taxa de letalidade irreal.

Em 26 de fevereiro de 2020, foi confirmado o primeiro caso de Covid19 no Brasil, e o cenário que já desenhado pelo mundo, deu-nos a possibilidade de, mesmo com todas as limitações financeiras e estruturais do nosso país, nos prepararmos minimamente para a chegada desse pandemia.

Essa preparação inclui, desde a aquisição de equipamentos, como ventiladores para respiração artificial e de EPI’s para os profissionais de saúde à montagem de estruturas de hospitais de campanha, e até mesmo as conhecidas e tão comentadas medidas de contenção social, ou redução de circulação das pessoas. E, é aí, que começa a primeira grande consequência dessa pandemia no Brasil: o impacto financeiro da doença na vida dos brasileiros.

Ao contrário do que ocorreu na Ásia e na Europa, onde o impacto econômico foi melhor absolvido pela população devido a sua convivência próxima e real com as consequências fatais da pandemia, como mortes e sobrecarga do sistema de saúde, no Brasil, as sequelas econômicas das medidas preventivas chegaram antes que os problemas de saúde.

A falta de uma melhor estrutura econômica do país, aliado ao fato do setor de serviços representar uma gama imensa da força de trabalho nacional, são fatores decisivos para que nossa economia não suporte uma paralisação da cadeia produtiva de trabalho, sem um prejuízo avassalador para nossa economia.

Em outros países, a contenção de circulação e a paralisação de alguns serviços foi acompanhada de uma intervenção econômica nacional, através do pagamento quase que integral dos salários dos trabalhadores pelo estado. A ausência dessa intervenção social em forma de auxílio financeiro no Brasil tornou “capenga” a nossa quarentena. Como exigir de um trabalhador autônomo que ganha hoje o alimento de amanhã, que fique em casa com sua família, sem qualquer auxílio financeiro? Além disso, a não convivência da população com as consequências fatais da doença, não permite ainda a percepção da real necessidade dessas medidas.

Um fato indiscutível é que nesse início de combate à pandemia essas medidas são necessárias e indispensáveis para reduzir a velocidade de proliferação inicial dos casos e evitar o colapso dos sistemas público e privado de saúde. Não podemos transformar vidas em percentuais numéricos, com justificativas escabrosas, como a de que a grande maioria dos óbitos é de pacientes idosos, sob pena de, brevemente, termos que participar de um macabro sorteio feito pelo acaso para vermos qual família oferecerá o próximo idoso para atender a tão defendida estatística.

O pânico e as consequências do isolamento social são fenômenos comuns em momentos históricos como esse. Mas, é imprescindível a preservação de nossa sanidade mental, para buscarmos as soluções necessárias para tranquilidade e equilíbrio que o momento requer.

O povo brasileiro não pode aceitar a matemática simplista de que para preservar empregos precisamos sacrificar vidas. Devemos tomar como um desafio nacional, encontrarmos dentro na nossa realidade estrutural uma forma de mantermos a economia em movimento, salvando vidas, preservando os empregos e, sobretudo, mantendo as condições financeiras, os recursos necessários e indispensáveis para custear essa “guerra” contra o Covid-19, que só está apenas começando.

Manter a nossa economia viva é de suma importância, mas, não deve ser vista como a razão, e sim, como o principal instrumento que nos dará condições de salvar o máximo de vidas nessa pandemia.

 

*Defensor Público e Vereador de Aracaju

2020-03-26T19:55:40-03:0026 mar 2020|Fala Elber|